Fuga, um pergaminho Jadepunk


Por Benjamin Feehan

Shen colocou um pouco do sombrio fluido verde nos enferrujados copos de lata. As mãos calejadas que seguravam cada copo eram brutas, dedos imundos com sujeira debaixo das unhas serrilhadas. Algumas tinham até dedos inteiros faltando, a sentença de um gangster Kaiyumês ou uma sangrenta oferenda às engrenagens de alguma máquina em uma mina nas profundezas por aí. À sua esquerda, um marinheiro aerês, ainda tentando aplacar a dor das queimaduras que os guardas usaram para remover sua tatuagem de jade vermelho. Shen duvidou que algum dia os dedos do homem voltariam a ser o que eram. Não que alguem conseguisse voltar a ser o mesmo depois de uma “visita” ao Campo de Trabalho da Montanha Diyu.

Suas próprias mãos estavam até que relativamente limpas perto às destes homens amargurados pela vida. Shen era magricelo e usava óculos, e, zombando, o capataz logo enviou o pequeno Túyangano para o serviço de latrina: “Eu preciso de homens com fibra. Ninguem tem tempo pra ler na minha montanha. Pena que você não cresceu em uma fazenda.”

Fétido assim, Shen não poderia ter escolhido um trabalho mais apropriado pro que planejara. Inspeções surpresa e a vigilante Capitã Jora garantiam que tudo que vagamente lembrasse contrabando era muito bem distribuido entre os guardas. No entanto, ninguem se dava ao trabalho de checar as cabanas fedorentas de madeira no final do acampamento, onde ele passava seus dias, selha em punho.

Levaram três meses, mas os homens finalmente conseguiram um bule adequado. Se passou outro mês até que o mãos-leves do Alistair conseguisse roubar a garrafa de whiskey Kinardbaliano do sargento noturno. E então as ervas, que foram adquiridas pelo próprio Shen. Pé-de-cabrito era comum nas montanhas, mas as ervas de chá amarelo só cresciam perto de água limpa na primavera. Convencer o Cabo Kai que alguns punhados bem preparados iriam salvar seu casamento resolveram o problema. Depois disso, foi só questão de conseguir o pálido pó verde que os homens às vezes achavam em escavações mais rasas. Um punhado aqui, um aperto de mão ali, e Shen chegou até a achar um pouco enrolado em uma folha debaixo de seu cobertor, em uma certa noite.

Sacrificando sua única meia para guardar o pó, ele combinou os ingredientes sobre uma pequena chama. Esses meses de espera lhe deram o tempo preciso para construir um sistema rudimentar de câmaras e válvulas abaixo das latrinas, com as quais ele filtrava o fedor do gás inflamável produzido por anos de esgoto apodrecendo. Ele cuidou da chama por sete dias, mantendo o pó, o whiskey e as ervas o mais perto da ebulição possível, e no oitavo dia, estava pronto.

Shen mexeu o líquido em seu copo. “Lembre-se, isto não vai durar muito tempo. Assim que sentirem o efeito começar, façam.”

O marinheiro estremeceu quando cheirou o conteúde de sua caneca. “É bom que isso funcione.”

Veio então um coro de engasgos e falta de ar conforme eles iam se forçando a beber. Então, na escuridão da senzala, eles esperaram. Um minuto depois, o tamborilar começou. Em algum ponto no fundo de seu crânio, Shen a sentiu chegando. Era viva e primordial, como o aroma dos campos de arroz de seu pai, na primavera. Ele conseguia senti-la percorrer espinha abaixo, lenta e forte como o antigo carvalho no templo da vila, sua raízes levantando as placas de granito do pátio.

Um palito de fósforo se acendeu e Shen conseguiu virar apenas à tempo de ver os olhos negros de um mercador naramélico brilhar e tornarem-se verdes vivo. Houve um estalo quando alguem, literalmente, atravessou o chão com o pé, e à seu lado, o marinheiro gritou: “Agora sim…”

Movendo-se como um gato selvagem, Alistair foi o primeiro a sair. Uma guarda com uma lanterna piscou e morreu conforme o marinheiro enfiava o punho através de seu peitoral. Shen fez a curva e seguiu pelo caminho mais curto para os aposentos do capataz e arsenal do campo. O efeito só duraria até lá, e na metade do caminho, um guarda puxou o revólver. Sempre houve uma política de atirar primeiro na Montanha Diyu. Shen tomou quatro balas e só teve tempo de vê-las ricocheteando em seu peito como pedras ricocheteiam em um tronco de árvore. Ele deu um golpe certeiro no pescoço, agora quebrado, do homem. Um momento depois ele derrubou, à chutes, a porta reforçada com ferro do posto de comando.

Fuga

O capataz estava em seus trajes noturnos, mas seu longo e curvado sabre de comandante já estava em punho e foi de encontro ao antebraço de Shen com um tinido. Ele colocou as duas mãos na lâmina e a torceu, fazendo com que o aço se rendesse com um gemido e um segundo depois, o capataz foi jogado por sob sua mesa como se tivesse sido chutado com a força de um qixiniu raivoso. Ele gemeu. “O que é isso? O que você está fazendo?”

Shen catou o molho de chaves do capataz de cima da mesa. “Jade verde, seu imbecil. Pena você não ter crescido em uma fazenda.”